Farmacogenética na Terapia Antitabagista

Um diagrama de DNA com tabagismo e comprimidos.

por Carolina Dagli | 23/05/2024 | FarmacogenéticaFarmacogenômicaMedicina de PrecisãoMedicina PersonalizadaMedicina PreventivaNão categorizado

O tabagismo é uma das principais causas de morte evitável. Está associado a várias doenças, incluindo câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doenças cardiovasculares e diabetes. Os dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) apontaram que, em 2023, a porcentagem de tabagistas no Brasil era de 9,3%, sendo 10,2% entre homens e 7,2%, mulheres. Esse cenário destaca a necessidade urgente de tratamentos efetivos para a cessação do tabagismo

A bupropiona é um medicamento não nicotínico muito utilizado na terapia antitabagista. Ela é metabolizada pela enzima CYP2B6 e transformada em seu metabólito, hidroxibupropiona, que pode contribuir para a atividade farmacológica da bupropiona.  

Sendo assim, o estudo selecionado esta semana teve os seguintes objetivos: 

  • entender a contribuição da hidroxibupropiona para a atividade da bupropiona na terapia antitabagismo; e 
  • identificar as fontes de variabilidade das concentrações de hidroxibupropiona, como, por exemplo, variantes genéticas no gene que codifica a enzima CYP2B6.  

Desenho do estudo 

  • O desenho do estudo foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. 
  • Foram recrutados 540 fumantes leves afro-americanos. Foram selecionados apenas afro-americanos porque eles apresentam um risco significativamente maior de apresentar de morbidades relacionadas ao tabagismo. 
  • Os participantes foram atribuídos ao braço de tratamento com bupropiona (n=270, 150 mg/dia por 3 dias, depois 150 mg duas vezes ao dia por 7 semanas) ou ao braço de placebo (n=270), com seguimento por 26 semanas.  
  • As amostras de plasma foram coletadas na semana 3 para medir a concentração de bupropiona e seus metabólitos.  
  • Os indivíduos foram classificados como metabolizadores lentos, intermediários ou normais para CYP2B6, de acordo com o teste farmacogenético do gene CYP2B6. 

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Resultados 

Efetividade da hidroxibupropiona: 

  • Entre os 270 participantes designados para o tratamento com bupropiona, 154 foram classificados como aderentes ao tratamento (com concentrações detectáveis de bupropiona no plasma).  
  • Os indivíduos aderentes apresentaram taxas de cessação do tabagismo significativamente maiores em comparação ao grupo placebo (18% vs. 10%, p=0,025), especialmente aqueles com concentrações mais elevadas de hidroxibupropiona (OR nas semanas 3, 7 e 26: 2,82, 2,96 e 2,37, respectivamente; P < 0,05). 
  • As concentrações de bupropiona, por si só, não previram os desfechos de cessação, seja isoladamente ou após controle para as concentrações de hidroxibupropiona. 

Influência de variantes genéticas no gene CYP2B6: 

  • A variabilidade das concentrações de hidroxibupropiona foi associada às variantes genéticas no gene CYP2B6.  
  • Metabolizadores intermediários apresentaram concentrações plasmáticas 20% menores de hidroxibupropiona, enquanto metabolizadores lentos apresentaram concentrações plasmáticas 40% menores (p<0,05).  

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Conclusões 

Este estudo apresenta três descobertas principais: 

  • A bupropiona é um tratamento eficaz a longo prazo para fumantes leves aderentes ao tratamento, especialmente aqueles com maior atividade do CYP2B6. 
  • As concentrações plasmáticas de hidroxibupropiona se correlacionam com a efetividade do tratamento e a hidroxibupropiona é um metabólito determinante para a efetividade do tratamento.  
  • O genótipo CYP2B6 foi um contribuinte significativo para a variabilidade das concentrações de hidroxibupropiona e pode contribuir para a menor efetividade da terapia antitabagista em metabolizadores lentos para CYP2B6. 

Os resultados deste estudo indicam que a hidroxibupropiona tem uma contribuição importante na efetividade da terapia antitabagista e a variabilidade genética do CYP2B6 pode influenciar nas concentrações plasmáticas do metabólito ativo da bupropiona. Dessa forma, o teste farmacogenético pode ajudar a ajustar a dose da bupropiona com base no genótipo de CYP2B6, podendo melhorar, assim, os desfechos de tratamento. 

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